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sábado, 28 de novembro de 2015

Bronson

por 

Primeiramente, o filme "Bronson" tinha tudo para dar certo. Vamos começar falando do contundente diretor Nicolas Winding Refn, que há pouco ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes com seu filme "Driver", e também demonstrou muita ousadia com o visceral e silencioso "Vahalla Rising", longa que explora as entranhas dos bárbaros europeus durante o início do cristianismo. 

Em "Bronson", Winding opta pelo tom surreal e sempre claustrofóbico em suas cenas. Acompanhado por uma trilha sonora orquestral pesada, desde o começo da película o espectador literalmente sente medo do que está por vir, tudo isso alicerçado por um roteiro inspirado, que passeia livremente pela mente perturbada de seu personagem.

Em segundo falemos de Tom Hardy, eficiente ator britânico que, depois de sua interpretação ensandecida em "Bronson", iniciou uma parceria mais que positiva com ninguém menos que Cristopher Nolan, sendo que ele já possui "A Origem" em seu currículo e em breve interpretará o vilão Bane no filme que fecha a trilogia "Batman Nolan". Jason Statham chegou a ser cogitado para o papel, mas não pode devido a sua agenda lotada, o que no final acabou sendo o correto, pois sem a encarnação mais que verossímil de Hardy, o filme definitivamente não seria o mesmo. 

Por fim, temos Charles Bronson e sua história absurdamente real. Ele pode não ter feito nenhum "Desejo de Matar", mas com certeza exemplifica o sentimento com perfeição. Nascido Michael Peterson, este individuo maluco foi ironicamente ovacionado como "o preso mais violento do Reino Unido"... E isso era tudo que ele queria. 


Sua vida atrás das grades começou quando o mesmo tinha 19 anos, mas precisamente em 1974. Ele roubou alguns dólares de uma agência de correio e acabou pegando sete gordos anos de reclusão por isso. Uma vez dentro da prisão, Peterson pegou afeto pelo confinamento, retomou seu nome artístico dos tempos de boxes de rua (Charles Bronson: uma espécie de alterego psicótico na verdade) e então iniciou a construção de sua lenda. Os sete primeiros anos se transformaram em 14 devido a diversas situações com reféns e muita violência gratuita. Ele passou a maior parte deste tempo na solitária.  

No dia 30 de outubro de 1988 Bronson foi solto. Aproveitou 69 dias como um homem livre até ser preso novamente por roubo. Hoje já são mais de 34 anos de cadeia, 30 deles na solitária. Sua sentença é perpétua, sendo que o fato mais irônico é: ele nunca matou ninguém. No entanto foi o catalisador de eventos incrivelmente absurdos, como rebeliões com incêndios,  protestos em telhados por dias a fio, e (novamente) incontáveis situações com reféns.

Em certa ocasião chegou a requisitar uma boneca inflável, um helicóptero e uma xícara de chá como resgate, já em outro exigia ser chamado de general e dizia que iria comer rapidamente um de seus reféns. E não termina por aí, ele já chegou a pedir um avião direto para Cuba, duas submetralhadoras Uzi, 5,000 cápsulas de munição e um machado. Por vezes ele apenas cantava "Yellow Submarine", e nos tribunais se dizia "culpado como Hitler". Em 2001 se casou pela segunda vez com Fatema Saira Rehman. O inusitado foi que, no período ele se converteu ao islamismo e desejou ser chamado de Charles Ali Ahmed. Quatro anos depois ele estava separado e havia renunciado ao islã. Todos esses acontecimentos foram dissecados ao extremo pela mídia inglesa, sempre voraz e louca por banalidades. 


No entanto o filme de Winding não explora nem 1/3 de toda está loucura, pois se foca em tentar apresentar os motivos por trás da edificação desta mente perturbada, como a alienação da classe baixa britânica e seu eterno culto corrosivo as celebridades. Mas é claro, momentos de extrema violência e humor negro estão presentes, e acredite, por mais alucinantes que pareçam, são todos muito próximos da realidade.

Muitos catalogaram o filme como sendo um novo "Laranja Mecânica". Exageros a parte, a obra passeia sim pelo espírito do clássico de Kubrick, vindo para perturbar ao invés de agradar. Já a linguagem pode até conter algumas influências (principalmente na trilha e no andamento), mais no geral ele possui uma personalidade própria bem forte. 

E para enfatizar toda esta polêmica, uma gravação ilegal, contendo a voz de Bronson, foi executada na première do longa. Aparentemente o diretor coletou mais do que informações em suas visitas ao detento. A construção da lenda se completava.


Essa exposição trouxe Bronson novamente para o centro dos holofotes, mas ele já estava acostumado, pois em todos estes anos de reclusão o indivíduo foi tema de livros e entrevistas, além dele mesmo ser o vencedor de alguns prêmios literários, tendo lançado 11 livros no total. Alguns deles são inteiramente dedicados ao amor que possui por treinamentos físicos ("Solitary Fitness", por exemplo) e como gosta de praticá-los em espaços confinados. 

Até hoje Bronson se orgulha de ser o preso mais caro e deturpado do Reino Unido. Já passou por 120 prisões diferentes, além de três hospitais psiquiátricos de segurança máxima. Em 1999 ele ganhou uma unidade prisional própria, que dividia com outros dois detentos de alta periculosidade.

No final, o filme "Bronson" quase desaparece na sombra desta figura extremamente insana, mas acaba sendo muito bem sucedido em explorar os recôncavos da mente do anti-herói clássico. Bronson sempre foi um artista, ele sempre quis se comunicar, mas acima de tudo, assim como todos nós, ele buscava ser amado, buscava contato humano... E espancar seu semelhante era a única forma dele conseguir isso.


Bronson: Inglaterra/ 2008/ 92 min/ Direção: Nicolas Winding Refn/ Elenco: Tom Hardy, Kelly Adams, Luing Andrews, Katy Barker, Holly Lucas, Juliet Oldfield

Brilho de Uma Paixão (Bright Star)

por 

Com beleza e respeito, “Brilho de uma Paixão” explora o romance por traz das inspirações do poeta inglês John Keats. 

Entre olhares e meias palavras, a diretora Jane Campion conta a história do icônico poeta John Keats e suas duas paixões: a poesia e Fanny Brawne. A primeira ele conquistou com muito esforço. Mesmo sendo enxovalhado pela crítica com seu longo poema “Endymion” em 1818, o jovem nunca se abateu, procurando se aprimorar cada vez mais para assim alcançar a perfeição. Já a segunda aconteceu de forma natural, como toda a paixão deve ser, mas um relacionamento do século 19 não dependia apenas da naturalidade de seus eventos.

Keats morava com seu amigo e companheiro de poesia Mr.Brown, um sujeito de caráter expansivo e personalidade amarga. Os dois viviam em meio à família Brawne, que era senhoria da casa em que moravam. Conforme o tempo passava, o relacionamento entre o poeta Keats e a garota de personalidade forte Fanny, se mostrava certo, apesar do jovem não possuir garantias mínimas do sustento da moça, o que era altamente recomendado pelas convenções matrimonias da época. Mesmo assim o envolvimento nasce, mas como esta é uma história de amor baseada em fatos reais, seu final esbarra em uma dura realidade.




Jane Campion conduziu o longa de forma tradicional e com muita pericia. Alicerçada pela ótima história que estava contando, destacou a inspirada fotografia de Greig Fraser, que revela a beleza da forma de seus cenários e personagens: os piqueniques na grama, as cores vivas das flores, as crianças que capturam borboletas, o poeta que se deita no topo da árvore, e a mulher que lê poesia junto à janela. Com muita fluidez, a diretora neozelandesa - que já conquistou a Palma de Ouro com o excelente “O Piano”-, não perde seu foco em momento algum, trabalhando de forma impecável os jogos de interesses, manipulações camufladas e sentimentos guardados tão costumeiros daquele período.

A atriz Abbie Cornish, que já viveu outra excelente história de amor ao lado de Heath Ledger no lisérgico “Candy”, consegue encontrar a maturidade exata para sua personagem. Fanny é uma mulher a frente de seu tempo: preza uma boa conversa, se mostra inventiva e talentosa com a costura da época, e também se interessa em aprender poesia. Suas angústias, envolvendo seu complicado romance, são sentidas com pesar pelo telespectador, sendo este o ponto de destaque da atriz. Dona de um olhar profundo, belo e ao mesmo tempo triste, seu semblante de esperança muitas vezes se contrasta com as impossibilidades impostas pelos fatos ao seu redor. Racional e estruturada, a personagem é com certeza os olhos e os sentimentos de seu público, que torce pelo amor do casal, mesmo sabendo que uma vitória é impossível.


Já a interpretação de John Keats ficou a cargo do vívido Ben Whishaw, que chamou atenção no sensorial “Perfume – A História de um Assassino”, e no surreal “Não Estou Lá”, que conta a história do cantor Bob Dylan. Neste “O Brilho de uma Paixão”, o ator mostra sua dedicação com a personagem, realizando uma interpretação inspirada e com sensibilidade, uma tarefa nada fácil, pois o peso dessa personalidade real apresentava suas responsabilidades. O interprete consegue encarnar este poeta sobrecarregado que acabara de perder seu irmão devido a uma grave doença. Todas as relações burocráticas ao redor de Keats fizeram com que ele vislumbrasse um futuro incerto, onde não encontrava possibilidades de concretizar a relação com sua amada. Este mesmo futuro acabaria culminando na aceitação fatídica de sua morte, mediante seu grave quadro de saúde.
Como coadjuvante de destaque do filme temos Paul Schneider, como o já citado Mr.Brown. O ator alcança o tom certo para este detestável amigo de Keats, que, apesar de suas palavras muitas vezes hostis, no fundo de seu coração carregava uma grande apreciação e preocupação por seu amigo, sendo suas atitudes uma forma pretensiosa de proteção.

John Keats teve uma vida curta. Morreu aos 26 anos de tuberculose na Itália. Mesmo com o pouco tempo que teve para sentir a plenitude de sua existência, deixou obras memoráveis para posteridade, alcançando uma fama que com certeza nunca pensou ser possível em vida. Através das cartas e poemas, destinadas para o irmão e sua amada, e tomando como base a biografia escrita por Andrew Motion, a diretora Jane Campion conseguiu capturar este breve momento da vida do jovem, um momento que ficou eternizado através de seus poemas, como sua eterna “Estrela Cintilante”, ou originalmente “Bright Star” (famoso poema de Keats). Com uma apresentação de créditos inovadora, somos arrastados para o mundo poético do autor e seu sublime poder das palavras. Literalmente, arte em sua mais pura essência.


Brilho de Uma Paixão/ Bright Star: Inglaterra, Austrália, França/ 2009/ 119 min/ Direção: Jane Campion/ Elenco: Abbie Cornish, Ben Whishaw, Paul Schneider, Kerry Fox, Edie Martin

Blue Ruin - Crítica

por 


Com as próprias mãos

Na sétima arte, retratar a morte de maneira realista é uma opção de inúmeras virtudes, mas obviamente de pouco alcance. Não existe glamour no realismo, não existe enfeite. O assassino, por mais experiente que seja, não possui a frieza calculada de um agente Bourne. A vítima, quando atacada, não tomba inerte automaticamente morta. Ela agoniza, estrebucha, uma cena digna de pena. 


Autores que prezam por veracidade não buscam entreter sua audiência da mesma forma que, digamos, Sylvester Stallone, com seus famosos personagens matadores de exércitos. Quem explora a morte com naturalidade visa estarrecer, e "Blue Ruin" de fato é um filme estarrecedor.


A história nos apresenta a um desmazelado protagonista chamado Dwigth. Destroçado psicologicamente por traumas do passado, ele vive seus dias em uma espécie de purgatório, como se pagasse penitência antecipada por atos que viria a cometer. De olhar extremamente vazio e fala mansa (quase escassa), o jovem mendiga por ruas praianas, comendo o lixo dos outros e invadindo casas para se lavar.


Na verdade, o pobre coitado foi consumido por um desejo, e não restou muito dele depois disso. Dwight almeja vingança, pura e simplesmente - atitude condenada pela lei dos homens, mas que de forma velada é também digna de respeito. Após executar o plano, o mesmo precisa lidar com as consequências, pois seu direito de vingança valida o de outros. Aprendendo a matar e fugir de maneira grosseira - mas funcional -, Dwigth inconscientemente deposita o peso de seus atos nas costas de inocentes, e isso ele não pode permitir.




"Blue Ruin" foi dirigido por Jeremy Saulnier, novato que possui um talento especial para a fotografia. Neste quesito a obra oferece um conceito muito bem definido: enquadramentos se revelam sempre concisos e criativos, e a iluminação auspiciosa agrada aos olhos. Sua narrativa constrói cenas grandiosas, de ritmo eficiente e ambientação imersiva. Um trabalho técnico exemplar, medido com exatidão. A densa trilha sonora e a ótima cenografia também se destacam.


Já o roteiro fica gravado no inconsciente da audiência. A construção dos personagens é com certeza o ponto mais forte do trabalho. Como foi dito antes, não espere muita perícia do assassino protagonista. Em determinados momentos é quase hilário vê-lo executar seus planos. Como todo ser humano normal, ele eventualmente falha quando se encontra sobre pressão. Mas Dwight sabe se virar. Acima de tudo, ele tem colhões para agir sem arrependimentos, puxar o gatilho por assim dizer. No final isso faz toda a diferença.


O desconhecido ator Macon Blair (amigo de longa data do diretor) personifica um protagonista complexo, dono de uma duplicidade enorme. Ao mesmo tempo em que Dwight parece apático e inocente, percebemos também dentro dele uma raiva corrosiva, praticamente debilitante. Seu comportamento educado e formal é apenas um resquício de sua humanidade posterior, que fatidicamente já não existe mais.




O restante do elenco também chama atenção, em especial os atores Kevin Kolack e Devin Ratray. O primeiro interpreta o perigoso Teddy Cleland, sujeito pouco apegado a Dwight (vamos dizer somente isso). Já Ratray, ator de histórico voltado mais para comédias (vide "Nebraska"), dá vida ao amigo Ben Gaffeney, apreciador de Heavy Metal e entusiasta do armamento tático. Ele se torna peça fundamental na história do protagonista, e aproveita para inserir um pouco de humor na trama, mesmo que mórbido.


"Blue Ruin" é daqueles filmes que depois de finalizados continuammaquinando dentro de sua mente. É algo estarrecedor, que explora a violência humana em sua plenitude. A história, de contornos extremamente realistas, consegue racionalizar as motivações e situações que levaram um sujeito aparentemente normal a se tornar um assassino sem remorsos, capaz de matar com as próprias mãos. É a tristeza que leva a ruína.




Blue Ruin: 2013/ EUA/ 90 min/ Direção: Jeremy Saulnier/ Elenco: Macon Blair, Devin Ratray, Amy Hargreaves, Kevin Kolack, David W. Thompson

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood)

por 


#Ficção da vida real

Quem conhece a fundo a invejável carreira do diretor texano Richard Linklater, sabe que todo e qualquer tema abordado por ele é retratado de maneira única. Tanto faz se está falando de uma última viagem existencial pelo mundo dos sonhos, ou sobre as razões que fazem do Rock 'N' Roll um gênero musical obrigatório nas escolas. Linklater hoje parece incapaz de errar, e o segredo por trás de tamanha eficiência é quão pessoais são seus trabalhos. Ele não cria apenas filmes, ele cria um marco na vida de todos os envolvidos. Seu amor pelo cinema é palpável, e sua gana por inovar a narrativa de uma história parece ilimitada.   

As alegrias e dilemas da juventude são temas característicos do diretor, e sua obra prima Boyhood se tornou o trabalho definitivo sobre o assunto. Antes intitulada The Twelve-Year Project, a produção levou 12 anos pra ser finalizada. Em 2002, quando Linklater resolveu por em ação esta ousada ideia, o ator protagonista do filme, Ellar Coltrane, tinha 7 anos de idade. Hoje, em 2014, ano de lançamento de Boyhood, Coltrane completou 20 anos. O diretor literalmente registrou um garoto se transformando em homem. O envelhecimento do personagem Mason Junior foi real e diante das câmeras, e isso é uma experiência incomparável. É o cinema transcendendo suas barreirasconceituais e programáticas.



Obviamente não é só Mason quem envelhece. Sua irmã Samantha, seu pai, sua mãe, seus padrastos, seus amigos, todos se transformam. Linklater havia feito algo parecido com isso na sua fantástica Trilogia do Antes, mas o efeito nem sequer se compara ao de Boyhood. Ele até mesmo fez o ator Ethan Hawkeprometer que terminaria de dirigir o filme, caso morresse.

A história de Boyhood é simples e complicada como a vida real. Ela fala principalmente de pessoas, e como as mesmas reagem à divórcios, mudanças de cidade, de escola, de conduta, amizades perdidas, namoros, alcoolismo, violência, recomeço. O grande trunfo por trás deste conceito único, é que temos um grupo de personagens extremamente familiar, cujo apego é instantâneo. Somos induzidos com facilidade a julgar e perdoar estas pessoas, que possuem defeitos e qualidades tão próximas das nossas.




E como se subentende, o elenco trabalha de forma inspirada, em especial a atrizPatricia Arquette, que interpreta a mãe Olivia. A timeline da personagem é a mais atribulada, o que faz de sua mutação como pessoa a mais complexa. Arquette vai de vítima para vilã, e para vítima novamente com uma naturalidade tremenda. Olivia é sem dúvida uma das mais emblemáticas mães do cinema.  

Já no time mirim, ao invés de interpretações, o que vemos é uma exteriorização de comportamento. Para muitos deles, Boyhood foi a primeira experiência frente às câmeras. Toda cena, todo roteiro de cada etapa do filme, foi feito em parceria com os atores, que opinavam e decidiam o que seria melhor em determinado momento. É por isso que a naturalidade dos pequenos é enorme. Atuando, eles dizem o que pensam, e basicamente com suas próprias palavras.

Outro fator muito interessante são as referências de Linklater à cultura pop da época. Logo no início, a menina Samantha (interpretada por Lorelei Linklater, filha do diretor), canta a música Oops!...I Did It Again de Britney Spears, definitivamente um símbolo de outros tempos. Anos depois, vemos as crianças esperando ansiosas o lançamento do livro Harry Potter e o Enigma do Príncipe (personagem que no cinema também envelhece com seus fãs), e assim vai. Por entre conversas sobre Facebook e Star Wars, o diretor monta sua ambientação da década passada, com elementos quase didaticamente inseridos.   

No entanto, mesmo diante desta aparente positividade do tema, a moral meio que se divide, oferecendo diferentes pontos de vista para os jovens e para os "não tão jovens". Para os primeiros, o mundo é um horizonte sem fronteiras, de infinitas e instigantes possibilidades. Já para os outros, a confusão e decepção com as próprias vidas continua uma melancólica e debilitante realidade. Linklater nem tenta responder a impossível pergunta de Mason, "Qual é o sentido afinal?", mas como disse John Lennon, "A vida é o que acontece enquanto fazemos planos", por isso o que fica é: viva a vida, do jeito que ela vier, pois é a única que você terá. Mas faça seu melhor, ou pelo menos tente. Provavelmente isso vai fazer diferença. Filme obrigatório.

PS: Espero ver Mason no cinema de novo, talvez daqui 12 anos.


        

Boyhood: Da Infância à Juventude/ Boyhood: 2014/ EUA / 165 min/ Direção: Richard Linklater/ Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Ethan Hawke, Marco Parella, Jamie Howard, Andrew Villarreal, Zoe Graham, Brad Hawkins

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Predestinado (Predestination)

por 


#Sem Começo, Meio e Fim

Se a vida é um círculo, se nós realmente nos tornamos nossos pais, quem veio primeiro afinal, o pai ou o filho? A indagação pode parecer profunda, no entanto, os diretores e roteiristas irmãos, Michael e Peter Spierig, provavelmente desenvolveram O Predestinado a partir de outra pergunta não tão enigmática, que seria: "Qual é o roteiro mais bizarro que podemos criar dentro do tema "viagem no tempo'"?

Bem, O Predestinado é muito mais do que apenas um thriller bizarro. O filme é um sci-fi investigativo empolgante, cuja história que serve de alicerce fala de um incansável agente temporal, que persegue até sua última missão o terrorista conhecido apenas como Fizzle Bomber. As vésperas de sua aposentadoria, ele precisa também preparar um novato para o serviço, e de quebra, apagar seu rastro pelo tempo. Acredite, existe muita coisa por trás desta trama, e fica complicado tentar explicá-la sem revelar algum spoiler. Até mesmo os mínimos detalhes, que não são tão mínimos assim, fazem toda a diferença.




Como disse, a obra se utiliza de uma ideia central bastante bizarra, que é, acima de tudo, extremamente criativa. Como todo filme que fala de viagem no tempo, é provável que em certos momentos sua mente crie uma tentativa de racionalizar alguma inconsistência, que por sua vez pode ser refutada por determinado argumento do roteiro, que só depois você se lembra que foi citado, ou não... e por aí vai. O importante é que a tal ideia central é bastante original, uma espécie de maldição meticulosamente orquestrada, não pelo destino, mas pela falta dele.

Porém, o que pode causar maior estranheza na audiência é o fato de algumas regras morais e sociais fundamentais (sem dizer biológicas) serem quebradas pelos personagens com uma facilidade que vai muito além da razão. Em certa situação em particular (um encontro), acontecem coisas tão improváveis que, por serem improváveis, merecem o benefício da dúvida. O que quero dizer é que, pelo simples fato de saber que uma situação nunca vai acontecer, como diabos é possível dizer que determinado comportamento nunca iria ocorrer com alguém nessa situação... que nunca vai acontecer. Entendeu?




Tecnicamente o filme funciona muito bem. Tem ótimas ideias visuais e elabora algumas soluções inteligentes para driblar o orçamento enxuto. Certo descompasso surge vez ou outra, pois afinal, os diretores irmãos são basicamente iniciantes. Antes desse, eles dirigiram outra ficção competente sobre vampiros, chamada Daybreakers, primeira colaboração deles com Ethan Hawke, que é o nome que de fato promove O Predestinado Além do bom trabalho do ator como o angustiado agente temporal, temos também uma grande surpresa no elenco, a jovem atriz Sarah Snook, que dá vida a personagem que pode ser chamada de "Mãe Solteira", embora seu nome seja Jane. 


Snook se revela uma profissional completa, versátil e focada na realização de seu trabalho. Sua Mãe Solteira é de longe a mais complexa e desafiadora da fita, diria até que é mais importante que o agente de Ethan Hawke, mas o certo é dizer que ambos possuem o mesmo valor dentro da trama. Recomendado.








O Predestinado/ Predestination: 2014/ Austrália / 97 min/ Direção: The Spierig Brothers/ Elenco: Ethan Hawke, Sarah Snook, Noah Taylor, Freya Stafford, Elise Jansen

Mapa para as Estrelas (Maps to the Stars)

por 


#Incesto de Cronenberg é mainstream

Mesmo para um trabalho de David CronenbergMapa para as Estrelas é imensamente perturbador. O diretor canadense, celebrado por clássicos bizarros e surreais (como Videodrome, A Mosca, Marcas da Violência...), conseguiu se superar na estranheza, e como de costume, manteve seu nível técnico eficiente e narrativa impecável.

Usando o enorme letreiro de Hollywood como paisagem, e canalizando tudo que o distrito representa em uma inspiração catártica, o roteirista Bruce Wagner criou um repugnante submundo de celebridades para validar a perversidade de sua história. Completamente desequilibrados, estes personagens são o resultado de um passado marcado por incestos, incêndios fatais e episódios de esquizofrenia.

Cronenberg decide então nos jogar de cabeça dentro da trama de Wagner. Nela, tudo e todos são direta ou simbolicamente interligados. Inicialmente, ainda sem contexto, somos estimulados a elaborar nossas deduções sobre o que diabos está acontecendo. Já na metade do segundo ato, todas as motivações estão expostas e se amarram perfeitamente. 

Nesta atraente Los Angeles depravada, de artistas oportunistas e parasitas bem vestidos, nada parece louco o bastante. O absurdo e a futilidade fazem de Mapa para as Estrelas algo cinicamente irônico. Existe uma licença poética funesta que mascara o desconforto, ou pelo menos tenta. Vender tamanha polêmica numa embalagem mainstream é uma realização digna de aplausos.



Em certa cena, por exemplo, acompanhamos perplexos uma filha que vê sua jovem mãe morta lhe assediando sexualmente. Como atenuar tamanho absurdo? Não atenua. Mapa para as Estrelas é todo sobre cadência de ritmo, ilusão e realidade, felicidade plena e depressão absoluta. Essa gangorra de emoções exemplifica as variações de tom adotadas pelo diretor, que no final impulsionam a trama quando necessário, tirando tudo da aparente normalidade e guiando as coisas de mal a pior de maneira acelerada. Repentino, mas coerente dentro da proposta.

Porém, nada seria possível sem o grande elenco escalado. Um dos destaques éEvan Bird, jovem talento que revela enorme personalidade como o astro problemático Benjie Weiss. Mia Wasikowska está competente e linda como sempre, mesmo com extensas cicatrizes de queimadura no rosto. John Cusakentrega seu melhor trabalho dos últimos 14 anos, e Julianne Moore não chega a convencer totalmente como Havana Segrand, no entanto, é compreensível que não exista empatia dela com a personagem. Havana é extremamente doentia.Recomendado.





Mapa para as Estrelas/ Maps to the Stars: 2014/ Canadá, EUA, Alemanha, França / 111 min/ Direção: David Cronenberg/ Elenco:Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusak, Evan Bird, Olivia Williams, Robert Pattinson, Sarah Gadon

Sanjay’s Super Team: the story behind Pixar’s history-making new short

Pixar’s philosophy may be to draw the stories out of their artists, but after 15 feature films, the animation leviathan has never created a central character who wasn’t white. That’s changed with Sanjay’s Super Team: the first Pixar film directed by a person of Indian heritage, and the first to put a person of colour at its heart.

Black Mass review: 'deeply exasperating'

Johnny Depp's prosthetic nose steals the show in this lumpy true-crime thriller about the Boston gangster Whitey Bulger
Johnny Depp has an extraordinary face. So why doesn’t he use it? In Black Mass, the new true-crime thriller from Scott Cooper, the actor is buried beneath a rubber nose and forehead, an artificially receding hairline, replacement eyebrows, crumbling, brown fake teeth, lizard-blue contact lenses, and a topcoat of sickly, grey-green make-up. In still photographs, the look just about works, but in the film, he often might as well be acting through a naan bread.
Depp plays James "Whitey" Bulger, the head of the Winter Hill Gang, who dealt drugs and ran an extortion racket on the streets of inner-city Boston in the Eighties and early Nineties while simultaneously working as an FBI informant. The character is a monster – and perhaps the purpose of the prosthetics is to make that monstrousness obvious, bringing it right up to the surface of the man, like scum on a stagnant pond. But in practice, it’s dramatically stifling, and, at worst, distracting: during a dinner scene, I kept expecting Bulger’s nose to hinge forwards and drop into the soup.
In Martin Scorsese’s operatic Boston mob epic The Departed, Jack Nicholson played a character heavily based on Bulger, and did it with nothing more than a smear of grease through his hair and a satanic goatee. Perhaps if Depp had done the same, Bulger might have been his long-hoped-for comeback to serious acting: in the end, he just feels like another Mad Hatter.
That’s a negative way to begin what is, on balance, a positive review. But this is a deeply exasperating film: lumpy, unbalanced and often derivative, but with isolated moments of riveting drama.
Joel Edgerton and Johnny Depp in Black Mass
Joel Edgerton and Johnny Depp in Black MassCredit: Â© 2014 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved./Claire Folger
Cooper (Crazy Heart, Out of the Furnace) borrows heavily from the Scorsese stylebook throughout: even his quick shots of cash-counting machines look like they were cribbed from Casino. But he mostly ignores the empire-building part of the story that’s so darkly satisfying in Scorsese’s gangster biopics.
Instead, his film luxuriates in the grisly details – the behind-the-scenes shootings and throttlings that for Bulger seem to qualify as both business and pleasure. You might expect a film called Black Mass to be a horror movie, and in a sense, right down to Tom Holkenborg’s throbbing, string-heavy score, that’s what it is.
Frustratingly, Mark Mallouk and Jez Butterworth’s screenplay, adapted from a book by two Boston journalists, never really manages to explain why Bulger is who he is – instead, it settles for defining him in terms of who he isn’t. He has two close relationships: one is with his white-sheep brother Bill (Benedict Cumberbatch), a Massachusetts state senator, and the other with John Connolly (Joel Edgerton), an FBI agent and long-time Bulger family friend, who’s prepared to milk that connection for his own professional advancement.
Benedict Cumberbatch and Johnny Depp in Black Mass
Benedict Cumberbatch and Johnny Depp in Black MassCredit: Warner Bros

At the start of the film, Connolly offers Bulger a deal. If he'll help squash the growing Italian Mafia in the city with the occasional tip-off, the FBI will allow the Winter Hill Gang to continue their operations unhindered. It’s an arrangement that initially pays off handsomely for both parties, but the compromise eats away at Connolly’s integrity – and soon enough, the lawman is more Bulger’s source than Bulger is his.
Cumberbatch is so suavely unpleasant in his handful of scenes that you wish he’d been given more to do. The extraordinarily different paths the brothers took in life might have been dramatic dynamite, yet this is almost entirely unexplored.
But Edgerton’s portrayal of Connolly’s slide to the dark side is full-throated and gripping, and he shares some terrific scenes with a couple of suspicious FBI superiors, played by Kevin Bacon and Corey Stoll, who both come to doubt the value of the Bulger deal. Better still is a wrenchingly unpleasant conversation at Connolly’s house, in which a light-hearted chat about a steak sauce recipe leads to not one, but two barely veiled threats of murder, and makes clear the specific whirrings of Bulger’s criminal mind.
It’s in scenes like these that the supporting cast members get a momentary chance to shine: Julianne Nicholson as Connolly’s increasingly uneasy wife, Dakota Johnson as the mother of Bulger’s kid and Peter Sarsgaard as an obstreperous cokehead all make a lasting impression in too-small roles.
Play!02:30
Perhaps best of all is Juno Temple as a puppyishly naive streetwalker who becomes a liability to Bulger’s operation, and whose neck might as well be marked "strangle here". The sense of doom as soon as she appears on screen is what Black Mass does best. It’s just a pity that the film, much like Depp’s latex-swathed face, doesn’t quite add up to a plausible whole.