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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pequeno Segredo, de David Schurmann

Membro da família de velejadores Schurmann, David Schurmann já havia se prontificado a levar para os cinemas detalhes de suas expedições com o documentário “O Mundo em Duas Voltas”. Em “Pequeno Segredo”, Schurmann agora resgata as memórias de seus pais e Kat, sua irmã adotiva, com um registro ficcional não de suas aventuras pelo mundo, mas de um drama particular narrado por sua mãe Heloisa no livro “Pequeno Segredo – As Lições de Kat para Família Schurmann”.
Mesmo o mais desinformado do espectador sabe que o centro da trama é a enfermidade carregada por Kat (Mariana Goulart), pré-adolescente que acredita ingerir vitaminas para controlar uma hepatite. Adotada por Heloisa (Julia Lemmertz) e Vilfredo (Marcello Antony), Kat tem os detalhes de sua concepção recriados aos poucos em “Pequeno Segredo”.
Graduado em cinema e televisão na Nova Zelândia, David Schurmann sugere ter grande afeto por filmes corais, aqueles em que alguns personagens desconhecidos entre si se conectam em uma narrativa não linear. É um desafio gerenciar indivíduos de personalidades distintas em linhas temporais diversas e, mesmo que Schurmann tenha a facilidade de lidar com apenas dois núcleos familiares, há uma regra sagrada não respeitada em “Pequeno Segredo”: o fator surpresa.
Fracassando ao pretender que o “pequeno segredo” nos seja revelado na mesma altura em que Kat descobre o que condenará a sua existência (uma pista jogada no primeiro ato trata de destruir qualquer apreensão que esse mistério provocaria), a condução de Schurmann se sabota na tentativa de respeitar as regras mais básicas da cartilha do melodrama. É um filme que não tem vergonha de admitir que foi feito para emocionar, mas que não sabe até onde apelar para fazê-lo.
Além da estrutura, dessas que ainda lidam com dados do passado já descortinados pelo presente, outro problema grave no filme vem a ser a construção de personagens. O senso de desprendimento dos Schurmann foi substituído por um novo estilo de vida em que Kat é uma prioridade 24 horas por dia. Já os pais biológicos da garota (interpretados por Maria Flor e Erroll Shand) contam com preocupações como o bem-estar próprio e alheio, assim como os dilemas de abandonar ou se manter em seus locais de origem. Tudo para serem descartados quando os Schurmann assumem um protagonismo mais evidente.
Lamentavelmente, o trabalho mais ingrato recai justamente nos ombros da irlandesa Fionnula Flanagan, excelente veterana mais conhecida por filmes como “Mães em Luta” e “Os Outros”, bem como por sua participação especial no seriado “Lost”. No papel da avó biológica de Kat, a atriz precisa se virar com falas desprezíveis e ainda é submetida a uma redenção a partir de um monólogo sobre o que é amar que jamais compramos.
É preciso coragem para tornar pública uma história dolorosa e privada e David Schurmann busca compartilhar a de sua irmã com carinho e ênfase em valores que deseja que o público carregue consigo após a sessão. No entanto, é preciso um amadurecimento que nenhuma credencial para tentar uma vaga no Oscar é capaz de substituir. Talvez fosse melhor ter repassado a história de Kat para outro diretor que não se preocupasse tanto em higienizar a tela e enfeitá-la com borboletas.

Review -Amanda Knox documentary challenges our grisly obsession with true crime - Netflix's provocative



    


Amanda Knox
CREDIT: NETFLIX


People love monsters,” says Amanda Knox, in Netflix's much-hyped account of her trial for the murder of her British roommate. “When they get the chance, they want to see them.” 
The 29-year-old remains chillingly inscrutable throughout the film, adding an unnerving ambivalence to what is in many ways a straightforward revisiting of an already widely-reported case, and its lurid aftermath. You don’t know whether to sympathise with Knox or recoil from her.
True crime is having a moment, with documentaries such as Serial andThe Jinx hooking audiences with their mix of grisly reportage and courtroom melodrama. But these shows had the advantage of recounting thoroughly obscure events, so that viewers were on tenterhooks to the end. In contrast, everyone is at least passingly au fait with Knox, a all-American student convicted, with her Italian boyfriend, of killing University of Leeds undergraduate Meredith Kercher in Perugia in 2007, but finally found innocent and acquitted in March last year.
Thus directors Brian McGinn and Rod Blackhurst face the challenge of building suspense while relaying a story in which the ending is already known (Knox was exonerated after police were found to have botched crucial DNA evidence). And though the movie offers no new bombshells the filmmakers have nonetheless wrought a spare and unflinching feature that offers a fresh perspective on Knox without descending into the sensationalism that attended original coverage of the trial.
 McGinn and Blackhurst have obtained some remarkable police footage. The film opens with a grisly forensics video of the still-fresh crime scene, Kercher’s leg visible beside a pool of blood. This hellish vista is in contrast to the calm front presented by Knox as she crisply asserts she was an innocent abroad stitched-up by authorities under pressure to solve a killing that had gripped the world. 
Without a deep knowledge of the case it’s hard to say whether we are being manipulated – a charge laid at the producers of the earlier Netflixtrue crime smash Making a Murderer. However, the facts as set out here strongly imply that – far from getting off on a technicality – Knox was indeed wrongly accused, with the Italian justice system portrayed as simultaneously Machiavellian and blundering. In prison awaiting trial Knox was, for instance, falsely told she was HIV positive in a bid to destabilise her. When she subsequently made a list of all the people she had slept with in Italy in an attempt to ascertain who might have passed the condition on to her, the details were leaked to the press, apparently to encourage the idea that she was a sexual predator bending men to her will. 
The film serves as a pointed commentary on the media's fascination with sensational crimes. “It was a particularly gruesome murder, throat slit, semi-naked, blood everywhere…what more do you want?” enthuses Nick Pisa, the former Daily Mail journalist who published Knox’s leaked prison diaries. He seems happy to embody the crassest instincts of modern journalism, likening a front page exclusive to great sex and yet suggesting he is following in the footsteps of Woodward and Bernstein. Donald Trump, popping up in archive footage to demand a boycott of Italy because of its treatment of Knox, comes off as sensitive and considered by comparison. 
The documentary is ultimately less concerned with the details of the murder than with the circus that ensued and the misogynistic caricaturing of Knox as a sex-crazed “she devil’ who held her boyfriend Raffaele Sollecito spellbound. Nor are the directors especially interested in What Amanda Did Next. We see her pottering around in her home in Seattle, but learn nothing of her life today or her hopes for the future.
McGinn and Blackhurst have instead assembled an insightful procedural that functions as a meta-commentary on our obsession with true crime. Young, female, with Hollywood looks, Knox was an irresistible villain – a fallen angel whose sexual history became fodder for the media. She is unsettling on camera, dead-eyed and with the body language of someone ill at ease in their own skin. Nonetheless, this quietly provocative movie asks those who rushed to burn her on a pyre to contemplate that they were wrong.
Amanda Knox is out on Netflix from September 30

[RESENHA] MAGÔNIA POR MARIA DAHVANA HEADLEY


ISBN: 9788501105882
Série: Magônia, vol. 1
Tradução: Alda Lima
Ano de Lançamento: 2016
Número de Páginas: 308
Editora: Galera Record
Classificação: ♥♥♥♥♥
Sinopse: Uma fantasia original com ótimos personagens, complexidade emocional e um universo fantástico. Aza Ray nasceu com uma estranha doença incurável que faz com que o ato de respirar se torne mais difícil. Aos médicos só resta prescrever medicamentos fortes na esperança de mantê-la viva. Quando Aza vê um misterioso navio no céu, sua família acredita que são alucinações provocadas pelos efeitos do medicamento. Mas ela sabe que não está vendo coisas, escutou alguém chamar seu nome lá de cima, nas nuvens, onde existe uma terra mágica de navios voadores e onde Aza não é mais a frágil garota enferma. Em ''Magônia'', ela não só pode respirar como cantar. Suas canções têm poderes transformadores e, através delas, Aza pode mudar o mundo abaixo das nuvens. Em uma brilhante e sensível estreia no gênero young adult, Maria Dahvana Headley constrói uma fantasia rica em nuances e cheia de simbolismo.

Surpreendente e original. Se tem adjetivos que possa usar para definir este livro, seriam estes. Comecei a leitura com muitas expectativas, pois estava louca para ler, mas todas foram superadas e fui fisgada nas primeiras linhas. Primeiro, pela narrativa maravilhosa de Maria Dahvana Headley, depois, pelo desenrolar da trama. Ao final? Espera aí que eu chegou lá!

Uma doença rara, misteriosa e incurável. Pulmões que não funcionam direito. Dificuldade em respirar, como se fosse se afogar com o ar a qualquer momento. Um coração totalmente fora do lugar na caixa torácica. Remédios. Pele azulada, lábios ressecados, idas e vindas ao hospital. Mais idas do que vindas. Isso tudo faz parte da vida de Aza Ray, uma garota de dezesseis anos nada normal. Tudo o que ela conhece é dor e sofrimento.


Mas Aza tem um amigo, e ele faz tudo parecer menos... pior? Jason. Sim, ele sempre esteve ao seu lado. Sempre, secretamente, buscou uma cura. Sempre a fez rir com piadas sem graça, ou contando histórias que parecem ter saído de uma enciclopédia. Eles têm até um jogo, contar pi, e ver quem chega mais longe. Jason sempre esteve por perto.

Apaixonados. Um pelo outro. Secretamente.

Tiro do bolso o pedaço de papel que Jadon me deu e fico olhando para ele. Ele não tem permissão de me fazer querer continuar viva. Eu { } você mais do que [[[{{{(( ))}}}]]].

Então um dia, em meio a uma estranha tempestade, Aza vê velas e o casco de um navio a desbravar os céus. Escuta seu nome sendo sussurrado através do vento. Estaria enlouquecendo? Talvez. Afinal, toma tantos remédios. Jason não acredita muito, mas começa a contar histórias sobre uma tal de Magônia. Sobre um povo que vive nos céus e que se transformaram em lendas, contos, mistério, medo, devaneio e alucinação no decorrer da história da humanidade. Fantasia. Poderia, mesmo, existir algo tão extraordinário, escondido entre as nuvens no céu?

Mais uma tempestade. Aza é assombrada por centenas de pássaros. Um deles entra em seus pulmões. Aza passa mal. Na ambulância, no caminho do hospital, rodeada por seu pai, sua irmã e Jason, Aza morre. E parte para o céu. Literalmente.

Pássaro no meu peito. Pássaro no meu peito. Navios no céu. Últimos momentos antes de morrer.  

Quando acorda, se vê em meio a um mundo fantástico e inimaginável. Em meio ao que parece um sonho, mas é muito real! E descobre, finalmente, quem é. Ou quem ela sempre foi. Ou será que o que ela era é o seu eu mais sincero e verdadeiro.

Sou matéria escura. O universo dentro de mim está cheio de alguma coisa, e nem a ciência consegue ter ideia do que seja. Sinto como se fosse feita quase inteiramente feita de mistérios.

Magônia conta uma história extraordinária. É um livro de fantasia original e empolgante, com muitas nuances, reviravoltas, simbolismos e mistérios. Cheia de navios que voam entre as nuvens, homens-pássaro, baleias-tempestade, canções cheias de poder e magia. Com muitos elementos que tornam o]a leitura prazerosa: drama, aventura, romance. A narrativa, quase poética, crua, em muitos momentos mordaz e irônica, franca e visceral, sob o ponto de vista de Aza. Apaixonada, determinada, profunda, vivaz, sob o ponto de vista de Jason. Me encantou.

Ao final? Me  vi completamente encantada e apaixonada por Magônia, pelos diálogos bem construídos, pelos personagens cativantes, pelo mundo deslumbrante que a autora desnudou diante dos meus olhos.

Ainda não me encaixo. Meu coração está metade na terra, metade nas nuvens. 

Queria contar tudo para vocês. Cada detalhezinho que me fez adorar esta leitura. Mas, então, estragaria as surpresas que vão se revelando a cada passar de páginas. E não quero estragar essa magia. Só posso dizer que esta, com certeza. foi uma das melhores leituras do ano, e que estou ansiosíssima pela continuação!

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Bridget Jones's Baby review - Renée Zellweger kooks up a storm


It’s been a rocky road into middle age for the shambolic, cripplingly body-conscious and serially unattached Bridget Jones. Or rather, two roads. A bit like Gwyneth Paltrow in Sliding Doors, only with a diet regime that's taken considerably longer to pay off, Bridget's entire life journey has bifurcated drastically before our eyes.

Renee Zellweger in Bridget Jones's Baby
Renee Zellweger in Bridget Jones's Baby
If you’re going by Helen Fielding’s books – the third of which, Mad About the Boy, was published back in 2013 – Bridget’s now a widow with two small children, following the death of her shining-armoured suitor Mark Darcy in a car accident. She’s dating a 29-year-old called Roxster and browsing lonelyhearts sites on the internet.
Colin Firth's hesitation over doing Bridget Jones's BabyPlay!02:48
Absolutely none of this is true of the Bridget we meet in Bridget Jones’s Baby – a forking path so wildly different you get the sense everyone at Working Title took one look at that book and flung it in the recycling. Those involved with this long-debated rewrite include, obligingly enough, Fielding herself, along with Borat screenwriter Dan Mazer and none other than Emma Thompson, who gets a never-more-clipped cameo as the nonplussed doctor verifying that, yep, Bridget has got herself up the duff.


Renee Zellweger, Patrick Dempsey and Colin Firth in Bridget Jones's Baby
Renee Zellweger, Patrick Dempsey and Colin Firth in Bridget Jones's Baby
What else has changed? For starters, Mark – that would be Colin Firth, resuming through clenched teeth his default task of playing Colin Firth – is still alive, though their relationship has fizzled out and left Bridget single all over again. It’s his caddish rival Daniel Cleaver who gets a funeral as the film begins, an authorial rethink mainly dictated by Hugh Grant’s point-blank refusal to be in it.
Stepping into that breach is Patrick Dempsey, as the enigmatic Yank whose tent Bridget fatefully mistakes for her own at a music festival, giving him a roughly 50/50 chance – the other’s Mark – of being her babyfather. 

Sally Phillips and Renee Zellweger in Bridget Jones's Baby
Sally Phillips and Renee Zellweger in Bridget Jones's Baby
Fielding was hardly the first writer to mine being unmarried, female, and in your thirties for empathetic laughs, but Bridget’s endless mortification struck an undeniable chord back in the day. One of the pleasures of this long-deferred catch-up is how her underdog status now matches its leading lady’s: perhaps it's Renee Zellweger’s fading star power in the intervening years that makes us root for her afresh. Or perhaps it’s the reassuring return of her original director, Sharon Maguire. 
Either way: phew. Kooking up a facial storm right from the legitimately hilarious opening credits, Zellweger feels back in charge of the character again, and even her excesses are easily indulged, after the tonally hideous detour of 2004’s The Edge of Reason. Nothing here, thank everything that’s holy, is as misjudged as that film’s excruciating singalong in a Thai jail. There’s especially bright fun to be had with Sarah Solemani, playing the anchorwoman of a TV news show Bridget keeps accidentally sabotaging in a producing capacity. These scenes pop plentifully.  

Renee Zellweger in Bridget Jones's Baby
Renee Zellweger in Bridget Jones's Baby
If you were going to carp, you might accuse the movie of getting wheezy in the third trimester. The who’s-the-daddy plotting only gives Firth and Dempsey stray moments you could really call funny: they'reboth playing straight man to the daffy heroine, which doubles the number of notionally romantic scenes without upping the comedy.
Meanwhile, the idea of this trio forming a polyamorous unit is the kind of briefly progressive conceit you just know is going to be thrown over for a straight-choice finale. They supposedly shot three endings, and while Thompson helps matters by saving herself a slam-dunk of a laugh for the delivery room, this only just gets the film across the finish line. It's a comeback you root for, then, even while it’s wobbling and occasionally falling in the mud. But goodwill gets it home.

sábado, 17 de setembro de 2016

Resenha Crítica | O Homem nas Trevas (2016)

Don’t Breathe, de Fede Alvarez 
O cineasta uruguaio Fede Alvarez chamou a atenção de Hollywood ao lançar no YouTube o curta-metragem “Ataque de Pânico”. Feito pela bagatela de 300 dólares e com um clima de cinema catástrofe de primeira, a realização de apenas cinco minutos seduziu especialmente Sam Raimi, cuja produtora Ghost House Pictures é popular por assegurar o sucesso de filmes de terror feitos dentro de orçamentos enxutos.
Ainda que o seu remake para “A Morte do Demônio” comprove um talento natural para os aspectos visuais de um filme, Fede Alvarez parecia preso aos limites de uma premissa sem a ressonância da versão original de Raimi. Felizmente, essa posição ingrata não se repete em “O Homem nas Trevas”, no qual Alvarez consegue exercer um domínio mais pleno a partir de um argumento original desenvolvida em parceria com Rodo Sayagues.
Já se nota o frescor com a escolha de não facilitar as coisas para o espectador quando “O Homem nas Trevas” revela em seu prólogo a índole questionável dos personagens, sendo três jovens que vivem de roubar o que ainda há de riqueza em uma Detroit arruinada. Busca-se ao menos aliviar a barra de Rocky (Jane Levy), que estaria acumulando dinheiro para ter um recomeço com a sua pequena irmã Diddy (Emma Bercovici) em outra cidade.
A realização desse sonho se torna ainda mais possível quando ela e os seus parceiros no crime Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto) recebem a pista de que há um cego (Stephen Lang, um ator de forte presença aproveitada em seu esplendor) com 300 mil dólares em seu cofre, valor preservado desde o momento em que foi indenizado pela morte de sua filha única em um acidente de carro. Ao invadirem a residência do sujeito, o trio tem uma surpresa: a fortuna escondida seria de aproximadamente um milhão de dólares.
Claro que as coisas não serão fáceis. Ex-soldado ferido com os estilhaços de uma granada, o proprietário da residência nada tem de vítima. Trata-se de um psicopata que imagina com a situação um cenário perfeito para transformar em campo de batalha, iniciando uma caça impiedosa a partir de sua audição apurada e do benefício de conhecer a anatomia do local em seus mínimos detalhes.O Homem nas Trevas (Don't Breathe)
A novidade de “O Homem nas Trevas” vai além da inversão do papel de vítima em algoz. Fede Alvarez tem em mãos o modelo do thriller de isolamento, buscando compreender todas as possibilidades de fazer o seu filme se desdobrar concentrando a ação em um único ambiente. A consequência é uma tensão gradativa capaz de nos lançar em um jogo em que experimentamos as mesmas sensações de perigo que ameaçam especialmente Rocky, papel que recebe dimensões graças a capacidade de Jane Levy em concentrar os seus medos em olhares de extrema vulnerabilidade.
O melhor de tudo é “O Homem das Trevas” não tem um ritmo trôpego ou desdobramentos pouco críveis dentro do contexto que estabelece, algo comum em filmes similares. Vem a ser especialmente louvável a parceria com o diretor de fotografia de Pedro Luque, que já havia provado em “A Casa” a execução exemplar da tarefa de sufocar a luz com a escuridão, preservando por vezes em “O Homem nas Trevas” uma atmosfera correspondente a penumbra permanente em que o vilão vive.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

NÓS DUAS DESCENDO A ESCADA, DE FABIANO DE SOUZA

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Um Namorado Para Minha Mulher, de Julia Rezende

A partir do roteiro assinado por Pablo Solarz, o diretor Juan Taratuto transformou “Um Namorado Para Minha Esposa” no maior fenômeno argentino de 2008, ficando durante sete semanas no topo de arrecadação das bilheterias do país. Básica, a premissa se mostrou eficiente ao tratar das contradições enfrentadas por um homem que contrata um sujeito para seduzir a sua companheira, algo que descomplicaria um desejado divórcio.
Um Namorado Para Minha Mulher
Como é complicado assegurar que um filme estrangeiro repita em outros mercados o sucesso de sua terra natal, a solução foi vender os direitos para a produção de refilmagens. Muitos não sabem, mas a nossa versão vem a ser a quinta: Coreia do Sul, Itália, Malásia e México já lançaram os seus “Um Namorado Para Minha Esposa” e há rumores de que os americanos também pensam em contar a mesma história.
Com uma modificação sutil no título, “Um Namorado para Minha Mulher” mostra o enfado de Chico (Caco Ciocler) em um casamento de 15 anos com Nena (Ingrid Guimarães). Dono de um antiquário, ele é um daqueles sujeitos pacatos com dificuldades de verbalizar os seus sentimentos e opiniões. Por isso mesmo, não sabe como romper com Nena, uma mulher sem emprego que passa o dia em casa se queixando sobre tudo.
Entra em cena Corvo (Domingos Montagner), um artista circense que cobre o tempo livre trabalhando como um conquistador barato com a missão de levar um casal a romper. Uma vez consolidada a sua contratação, Corvo começa a seguir Nena para identificar a sua personalidade, preferências e habilidades. Estabelece com ela uma cumplicidade que a fará ter uma perspectiva mais positiva sobre a vida, operando mudanças que serão notadas por Chico, que por sua vez reflete o quanto ainda a ama.
Diretora de “Meu Passado Me Condena” e de sua continuação, é evidente que Julia Rezende está interessada em lidar com projetos com grande apelo popular para assim conduzir outros com mais personalidade, que são capazes de encontrar um meio termo entre o blockbuster de mais de um milhão de ingressos vendidos e o cinema autoral. Lançado no ano passado, o bom “Ponte Aérea” foi um indício desse desejo.
O mesmo pode ser dito sobre Ingrid Guimarães, que formou um público bem cativo a partir de “De Pernas pro Ar”, lançado há seis anos. Além deste “Um Namorado Para Minha Esposa” e do já exibido “Entre Idas e Vindas”, Ingrid está em “Um Homem Só”, em que poderá ser vista em uma personagem com traços melancólicos bem evidentes.
Aliás, a atriz vem a ser a maior virtude de “Um Namorado Para Minha Esposa”. Impressiona a vontade com a qual se entrega a uma personagem sem qualquer carisma, ainda assim conseguindo humanizá-la ao ponto de nos fazer ter maior empatia por ela do que por Chico. Os melhores momentos são inclusive aqueles em que o improviso é perceptível, a exemplo de um teste que faz para um emprego em que expõe todas as suas insatisfações sobre velhos hábitos alheios.
Ainda assim, não há como não lamentar certa imaturidade do roteiro para lidar com o seu desenvolvimento e algumas de suas resoluções. Se o primeiro ato é promissor com o registro bem crível do cotidiano de um casal preso a uma rotina sem encantos, a comédia e o romance acabam se flexibilizando justamente com a entrada do Corvo de Domingos Montagner, restando à Ingrid assegurar alguma coesão a partir de um papel a princípio criado para ser detestado.

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

Aquarius
Mesmo com a ciência de um Brasil polarizado politicamente, é provável que Kleber Mendonça Filho não tenha previsto as penalidades que sofreria na decisão conjunta com a sua equipe de comparecer ao photo op em Cannes de “Aquarius” com sulfites A4 ostentando frases como “Um golpe ocorreu no Brasil” e “Brasil não é mais uma democracia”. Enquanto uma grande parcela demonstrou apoio o protesto, a oposição se enfureceu, exigindo boicote ao filme.
Quatro meses após o episódio no mais prestigiado festival de cinema do mundo, “Aquarius” chega ao público ainda envolto a controvérsias. Há duas que se destacam. A primeira diz respeito à classificação indicativa de 18 anos estabelecida pelo Ministério da Justiça, geralmente conferida a filmes com conteúdo violento ou sexual predominante e explícito.
A outra controvérsia se refere ao temor de Kleber em não ver “Aquarius” como o filme selecionado para representar o Brasil no Oscar, uma vez que um dos membros da comissão, o crítico Marcos Petrucelli, sempre se posicionou nas redes sociais contra a ação protagonizada pelo cineasta em Cannes. A novela prossegue, já contando com o desligamento de dois integrantes do grupo escalado pelo Ministério da Cultura e a desistência de colegas como Anna Muylaert (“Mãe Só Há Uma“), Gabriel Mascaro (“Boi Neon”) e Aly Muritiba (“Para Minha Amada Morta“) em inscrever os seus filmes para a vaga.
Muitos espectadores irão rememorar cada um dos acontecimentos descritos ao assistir “Aquarius”, já predisposto a apreciar ou não a realização. Vem aí um adendo. Kleber Mendonça Filho faz um cinema de autor, sintonizado com questões políticas e sociais que influenciam a sua visão de mundo. Por outro lado, isso não significa que “Aquarius” seja pautado nas inquietações que externou em Cannes. Assim, é importante apreciá-lo como uma manifestação artística que independe de todos esses fatores externos.
O tema central de “Aquarius” vem a ser uma extensão de uma discussão já fomentada em “O Som ao Redor” e em alguns de seus curtas: a apropriação de uma terra. Aposentada de 65 anos, viúva e mãe de três filhos com as vidas já feitas, Clara (Sonia Braga) é pressionada por uma construtora a abandonar o Edifício Aquarius, sendo a sua única inquilina. Mesmo que a oferta do jovem e ambicioso arquiteto Diego (Humberto Carrão) soe tentadora, Clara diz que jamais desistirá do seu apartamento.
Ao passo em que Diego bola provocações para que Clara ceda (como o transporte suspeito de colchões para os números desocupados e o convite para um grupo de amigos praticar uma orgia no andar superior – cena de meros segundos que de modo algum justifica a proibição de menores), vamos compreendendo o que o ambiente representa para ela. Não se trata apenas de um endereço para preservar as memórias de um tempo que não volta mais. É também a redoma de uma mulher aplacada pela solidão e as marcas de um câncer superado, que se consola com os inúmeros LPs que a rondam.
Há 20 anos sem protagonizar um longa-metragem brasileiro (o último pôster que estampou foi o de “Tieta do Agreste”, de Carlos Diegues), Sonia Braga é o coração que pulsa “Aquarius”. A veterana atriz se entrega de corpo e alma à Clara, um papel que não se exime de também compreender a vivacidade que há na velhice e que ainda a presenteia com instantes de fortes explosões dramáticas, especialmente quando a sua relação com o personagem de Humberto Carrão passa a ter as máscaras da cordialidade caídas.


Além da contribuição inestimável de Sonia Braga, Clara expõe outras dimensões quando problematizada pelo texto, tendo em seu encalço uma figura de grande influência tentando persuadi-la ao mesmo tempo em que os abismos sociais são deflagrados em uma Recife com territórios literalmente demarcados. Trata-se do investimento em um discurso que dá ao todo um excesso que poderia ser eliminado, mas que não nos faz desviar do principal atrativo de “Aquarius”: os valores de gerações que se atraem ou se repelem a partir da defesa de seus interesses particulares.